30 de jul de 2010

O Woodstock brasileiro

"Uma noite em 67" mostra que o Festival da Canção daquele ano pode ser apenas um flash na memória de quem estava no palco, mas deixa claro que, para o resto do país, foi mais que isso

Wilson Santos
JOVEM ASTRO
Chico canta “Roda viva” com o MPB-4. Ele diz que raramente lembra daquilo tudo

Documentários são feitos de imagens e ideias. Às vezes, como em Uma noite em 67, são feitos também de nostalgia. O filme de Renato Terra e Ricardo Calil, que entra em cartaz na próxima semana, fala do festival da canção de 1967 – um evento mítico da cultura brasileira, tão importante para nós quanto Woodstock para os americanos. O festival de rock de Woodstook estabeleceu, em 1969, o tom hippie e contestatório dos anos 1970. O festival de 1967 apresentou ao Brasil os personagens, as ideias e a tensão que tomaria conta do país nas décadas seguintes.

Na noite de 21 de abril de 1967, no palco do Teatro Paramount, no centro de São Paulo, foram apresentadas 12 finalistas ao título de melhor canção do ano. A competição era transmitida ao vivo, para todo o país, com níveis de audiência de final de Copa do Mundo. O auditório que vaiava e aplaudia era parte do espetáculo. Naquela noite, Chico Buarque cantou “Roda viva”, Edu Lobo trouxe “Ponteio”, Gilberto Gil veio com “Domingo no parque” (acompanhado dos Mutantes) e Caetano Veloso com “Alegria, alegria”. Todas essas canções se tornaram clássicos da música brasileira. É espantoso que tenham sido apresentadas pela primeira vez na mesma ocasião.

Para mostrar esse momento às gerações que apenas ouviram falar dele, Terra e Calil escolheram o caminho da simplicidade. E da emoção. A maior parte do filme se passa no palco do Paramount, durante a apresentação de seis músicas. Além das quatro famosas, há um Roberto Carlos incrivelmente jovem cantando um samba e Sérgio Ricardo atirando o violão sobre a plateia, que o impedira com vaias de cantar “Beto bom de bola”. A força dessas imagens é devastadora. Elas inserem o espectador numa catarse que transcorreu há quatro décadas. Se não contivesse mais nada, o documentário valeria por esses trechos do passado exibidos sem pressa. Mas há mais.

A segunda perna do filme é formada por imagens colhidas nos bastidores do festival, em que o apresentador Randal Juliano (morto em 2006) e a repórter Cidinha Campos entrevistam os jovens músicos. A espontaneidade da situação não tem paralelo na televisão controlada de hoje. Todo mundo fuma, todo mundo bebe e todo mundo fala livremente diante das câmeras. Os diretores exploram o confronto entre tradicionalistas e inovadores musicais, que refletia, na música, o debate político instalado à sombra do golpe militar de 1964. Chico tem apenas 23 anos, Caetano e Gil têm 25, mas é comovente perceber ali o esboço do que eles viriam a ser mais tarde. Chico trata a imprensa com ironia e timidez, enquanto Gil teoriza em círculos, como faz até hoje. Mas é Caetano, com uma atitude quase insolente, quem melhor antecipa a si mesmo. Ele dá o tom de rebeldia estética que iria desembocar, pouco depois, no tropicalismo.

Às cenas de arquivo da antiga TV Record, os diretores juntaram depoimentos recentes de organizadores e participantes do festival. Eles dão perspectiva histórica ao evento, além dos bastidores da organização. Um dos produtores explica, candidamente, que, para produzir o máximo de audiência, os festivais eram organizados como um espetáculo de luta livre: havia os heróis, a mocinha e os vilões. Quase uma vida depois, Chico Buarque ainda se irrita ao ser informado do papel involuntário que lhe cabia no roteiro – o de mocinho.

Ao final, é surpreendente perceber como os astros do evento, que se tornariam protagonistas da vida cultural brasileira, parecem desinteressados do período que os notabilizou. Chico diz que raramente lembra daquela época. Caetano reclama do interesse continuado por “Alegria, alegria”, que ele considera uma canção menor. Para ambos, a era dos festivais é apenas um flash na memória da juventude. Uma noite em 67 deixa claro que, para o resto do país, foi mais que isso.



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...