20 de jul de 2010

Like a rolling stone

Há exatos 45 anos, o rock passava por uma radical transformação nos seus dez anos de existência. Mais que isso, no distante 20 de julho de 1965 a cultura pop viveu sua mais significativa revolução quando Bob Dylan lançou a seminal música “Like a Rolling Stone”, a qual transformaria a poética do rock e o modo de divulgação de uma canção no rádio, que podia durar, no máximo, três minutos.
 (“Like a Rolling Stone” – cuja tradução literal significa “como uma pedra rolante” – tinha mais que o dobro desse tempo, por isso a Columbia Records pediu a Bob Dylan que a cortasse. Diante de sua recusa, a gravadora decidiu dividi-la em duas partes para que pudesse ser executada nas emissoras radiofônicas estadunidenses. Com a rejeição do público pelo artifício, que exigia que ela fosse tocada na íntegra, a música chegou ao segundo lugar na parada, tornando-se o maior sucesso de Bob Dylan até então.)
 Desde o seu surgimento com as primeiras gravações feitas por Elvis Presley, em meados dos anos 1950, o rock’n’roll só tinha dado uma guinada com a apresentação dos Beatles no “Eddie Sullivan Show”, em 1964, o que possibilitou que outras bandas inglesas, como The Who e The Rolling Stones, também se tornassem populares nos Estados Unidos.
 Com o lançamento de “Like a Rolling Stone”, o rock passou por uma revolução que estabeleceu outro padrão sonoro e introduziu a literatura no gênero. Até ali, os temas recorrentes nas letras de bandas e artistas do rock eram carros e garotas. Já a canção de Bob Dylan trazia assuntos sociais e políticos – e também a introspecção –, tornando-se a razão de ser e a bandeira revolucionária do rock a partir dali.
 Para Marcus Greil, referência obrigatória na crítica musical e autor do livro “Like a Rolling Stone – Bob Dylan na Encruzilhada” (Companhia das Letras; tradução de Celso Mauro Paciornik; 256 páginas), essa canção sozinha mudou a cultura pop em todo o mundo. Ele conta que a princípio a música, assim como todas as outras faixas do álbum “Highway 61 Revisited”, sofreu protestos raivosos dos fãs mais ortodoxos de Bob Dylan, que iam aos shows para xingá-lo de traidor e para vaiá-lo.
Isso se deveu ao fato de o autor de “canções de protesto” – como a também clássica “Blowin’ in the Wind” –, identificado pelo violão e pela gaita pendurada sobre os ombros, ter introduzido guitarra elétrica no folk, cujas composições criadas até então eram influenciadas pela obra de Woody Guthrie, sua maior referência artística e um dos principais nomes da folk music.
Transcendência Sonoramente, “Like a Rolling Stone” é introduzida por uma pancada seca de bateria, seguida por solos de guitarra que a costura e com intervenções de teclado, inovações que criaram novo padrão no trabalho do cantor, compositor e poeta nascido Robert Allen Zimmerman, em Dulluth, no estado de Minnesota (EUA), em 1941. Já na brilhante letra, ele usa metáforas para contar a história de uma esnobe da alta sociedade que se torna indigente.
Nela, Bob Dylan vale-se de uma estrutura narrativa inédita nas letras de rock, o que o tornou um ícone não apenas da música, mas também da literatura. “Trata-se de uma composição capaz de viver no papel, sem a música”, constata Marcus Greil em sua obra sobre o artista cinebiografado pelo diretor Todd Haynes em “Não Estou Lá”, de 2007. (Antes desse filme, em 2005, Martin Scorsese dirigiu o documentário “No Direction Home”, no qual Bob Dylan, cujo nome artístico é uma homenagem ao poeta galês Dylan Thomas, dá depoimentos esclarecedores sobre sua vida pessoal e artística.)
 Até hoje especula-se que sua “musa” inspiradora foi a socialite Edie Sedgwick, uma das amigas mais próximas de Andy Warhol, o pai da pop art, pela qual Bob Dylan foi apaixonado. Mas também existe a teoria que ele fala, metaforicamente, de si mesmo. Mais recentemente, tendo as três primeiras palavras da canção – “Era uma vez” – como fonte, uma nova tese aposta que ela não passa de uma estória criada. Outras muitas interpretações deverão surgir nas próximas décadas – quiçá nos próximos séculos –, já que “Like a Rolling Stone” continuará rolando por muitos anos ainda.


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